Quando eu era pequena minha mãe tinha um sonho: morar na casa que ela construiu. A gente morava numa casa herdada da minha avó paterna (a avó não morava com a gente) que naquela época já era muito velha. Meu pai fumava e as paredes de madeira e barro absorviam o odor. O mofo piorava as condições respiratórias da minha irmã. A gente vivia doente. Então minha mãe viu no terreno ao lado, que também era nosso, uma oportunidade de fazer uma casa nova para a família morar.
Meu pai não compartilhava das mesmas prioridades. Era 1994, o plano real trazia a equiparação com o dólar e equipamentos de informática eram mais acessíveis. Ele era programador, então ter um computador era mais que um hobby.
Eles discutiam. Na minha cabeça de criança, era simples assim: a mãe quer uma casa, o pai quer um computador. Não vou entrar nos detalhes que elaborei na análise porque são conjecturas que nem sequer me cabem; não é problema meu o que meus pais precisam resolver entre eles.
Mas eu ficava imaginando como seria morar na casa nova.
Eu me imaginava adolescente. Magra, sem barriga, cabelo longo: coisas que eu só podia sonhar quando era criança. Sem a mancha, também. E eu me imaginava sentada na escada, porque a casa nova era um sobrado, e um namoradinho vir me buscar pra gente sair. Bem seriado norte americano. Sou uma criança dos anos 90 afinal.
Fui magra mas sempre tive barriga; o cabelo, eu cortei. A gente se mudou sim pra casa nova, mas eu não fui uma adolescente feliz lá. Eu lembro da sensação de ter meu quarto, o cheiro do cimento do reboco e do piso crus, sem acabamento ainda. E de todas as fases depois disso: colocar os pisos (e dividir o quarto com a minha irmã por um mês, o que foi uma tortura), o corrimão da escada, refazer a escada umas três vezes porque ficou mal-feita, meu aniversário de 18 anos na laje com churrasco, amigos e Dance Dance Revolution.
Às vezes eu acho que minha mãe não realizou o sonho dela, mesmo tendo a casa, porque o sonho dela era uma família. E eu não realizei o meu também, não naquela outra casa, na casa deles. Porque o amor e a paz que eu buscava não estavam lá.
Mas estão aqui, na minha casa.
Meu marido e eu juntamos nosso FGTS e conseguimos dar entrada em um sobrado. Eu vi o anúncio no instagram, eu nem seguia a corretora. Mas quando eu vi, me apaixonei: era um sobrado com duas suítes, um quintal e uma edícula. Do jeitinho que eu queria.
Conversei com Eduardo, vimos o bairro, marcamos uma visita. Fomos os primeiros a visitar. O sobrado estava com reforma nas suítes — bom sinal. Perguntei pro dono o motivo da venda: “eu tenho outra casa e não tive boa experiência com aluguel”.
Solicitamos a compra. Tivemos a ajuda da correspondente bancária, a sorte do marido trabalhar em banco e ter taxas mais baixas, bons scores no Serasa, e deu tudo certo. Em 30 anos a casa é nossa.
Eu vi o story em 8 de agosto de 2024. 11:53 da manhã, pra ser mais exata. Nós assinamos o financiamento em 27 de setembro. Eu vou me mudar dia 20 de dezembro. E desde 8 de agosto eu não penso em outra coisa que não seja essa casa. Vão ser 134 dias esperando o momento de realizar esse sonho de vida inteira.
Eu tô absolutamente exausta.
Eu pensei em tudo. Fiz planilha, achei escolas, academia, limpeza de caixa d’água, engoli (e vomitei) desaforo, decoração, móveis, carreto… Quando eu não aguentei mais, até pedi ajuda (kkkkkk risos) e Eduardo achou pedreiro e eletricista.
Hoje estão lá, montando os móveis.
Quando eu sento nas escadas da minha casa, meu sonho se realiza: tenho uma família amorosa, sem brigas. Tenho até o cabelo longo, mesmo sem ser magra e ainda tendo muita barriga — aprendi a viver com isso, é ok.