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A mãe tá motorizada

A mãe tá motorizada

Apesar de não ter carteira de motorista nem de moto no alto dos meus 37 anos, nunca mesmo sequer ter tentado o processo, depois que me mudei a mobilidade ficou um problema maior pra mim. Não vou dizer “pra gente” porque Eduardo segue pedalando e ama pedalar. Eu também gosto, mas as subidas e os morros e o tempo acabam atrapalhando meu cotidiano. Tudo que eu vou fazer é longe. Pelo menos em comparação ao ainda recente bairro anterior.

Eu já estava flertando com autopropelidos: motinhas elétricas que chegam a 32km por hora e seguem outras regras para se enquadrarem como bicicletas. Elas não precisam de habilitação para dirigir. No bairro antigo ainda não era uma suuuuper necessidade, mas no novo e na iminência da minha cirurgia de septo e adenoide, faz falta.

Queria muito uma do tipo triciclo. Minha bicicleta é um triciclo e eu orgulhosamente não caí dela nenhuma vez nos últimos 3 anos em que ela é meu principal meio de transporte. A bicicleta convencional me derruba no chão, principalmente quando está parada ou começando a andar. Já que vou sempre andar com criança, fiquei com medo de pegar uma autopropelida de duas rodas.

Infelizmente os triciclos autopropelidos estão em torno de R$12 mil. É grana. É o preço do meu guarda-roupa planejado. Dói.

EIS QUE ontem eu resolvi testar as bikes elétricas de aluguel que tem aqui perto. Antes só tinha patinete. Agora as bikes chegaram também. Agora, que a temporada já tá acabando e que minha irmã andou quilômetros e quilômetros até a praia porque nenhuma das TRÊS bicicletas que temos em casa era segura pra ela.

Fui morrendo de medo: primeiro que sei lá quantos meses fazia que não me equilibrava em duas rodas, quem dirá elétrica. Mas para minha surpresa, logo peguei o jeito. O que achei mais legal é que não havia botão para ligar a parte elétrica: bastava pedalar com mais força, como uma marcha muito mais potente do que os músculos da minha perna. Não caí (quase, mas não caí!) e me apaixonei. Pensei: posso fazer isso em duas rodas.

Então fui refazer minha pesquisa de autopropelidos para incluir duas rodas, já que estava focando em triciclos. E acabei encontrando uma loja mais ou menos perto de casa! Uns 2.3km. Resolvi ir lá visitar “só pra ver, não vou comprar agora” (nem eu acreditei nisso, muito menos Eduardo).

A saga da compra da moto elétrica

Mais uma noite mal dormida, Eduardo praticamente não dormiu pra ficar com uma criança ranhenta. Eu capotei como sempre (obrigada cpap! preciso fazer um texto falando sobre o cpap), de nem conseguir ajudar muito. De manhã levantei primeiro e fiquei com o guri pro Edu poder descansar um pouquinho mais.

Eu e menino fomos na padaria, voltamos, e recebi a mensagem que um dos nossos armários de banheiro estava a caminho. Logo Edu acordou, então combinamos que ele ficaria em casa esperando o móvel e eu e a criança iríamos comprar os insumos necessários para instalar um outro armário e pia de banheiro que já havia chegado.

Então saí eu, meu triciclo e uma criança na minha cestinha de trás. Sábado de manhã. Pensei: vou aproveitar e dar uma olhada nos autopropelidos.

Pedalei os primeiros 2.3km até lá, com adicional de 18kg.

Eu alinhei a expectativa com o moço que me atendeu dizendo que não sabia se ia comprar, e ele comigo dizendo que não era um vendedor qualificado, estava cobrindo um colega. Tudo bem. Expliquei meu caso e ele me mostrou os modelos de 350 e 500 watts, os de entrada. A criança e eu sentamos e experimentamos. Quando ele falou que podia fazer teste drive, meus olhinhos brilharam.

Dei umas voltinhas sozinha primeiro, depois com o menino. A moto parece um patinete com acento, na verdade. Diferente da bicicleta, apesar de ter pedal para ajudar, ela acelera na mão direita, como uma moto convencional. Ela tem farol dianteiro e traseiro, setas, buzina, 3 níveis de velocidade (chamei de marchas), pé para apoio, cestinha e alarme. Carrega em uma tomada convencional, e cada carga custa aproximadamente R$1. Isso, um real. A autonomia é de uns 45km, então eu posso carregar uma vez por semana tranquilamente com meu uso normal.

Quando testei e o menino também pareceu gostar, não tinha mais volta. Eu queria tanto. Perguntei de valores. Ela foi quase R$8 mil. Dava para fazer em 18x, mas meu cartão só passou 12.

Vai durar uns anos. Espero economizar uns bons ubers e muita perna. Espero conseguir fazer exercício agora que vou ganhar tempo. Espero ajudar Eduardo quando eu operar, seja ele usando, seja eu voltando mais cedo à ativa. (Eduardo não foi super fã não. Ele ama pedalar. Pra ele, nada disso é problema).

ENFIM, falei “vou levar” o moço disse “bem agora veremos” e tentou fazer a venda pelo computador. O processo foi difícil, mas ele foi indo. Eu ainda estava com o meu triciclo lá. Ele sugeriu “deixa aqui na loja, leva a sua moto pra casa e depois vem buscar, mas até às 13h”. O processo todo de venda e etc coisa e tal eu saí da loja dele era 11h acho.

Toda feliz com a minha motoquinha, atravessei a rua ainda empurrando e fui ligar.

Nada aconteceu.

A mesma moto que eu tinha ACABADO de fazer o teste drive simplesmente não acelerava.

Tentei pedalar e foi HORRÍVEL. Os pedais são meio pra trás, pequenos, o banco é baixo, não dá pra pedalar direito. Fui empurrando.

De repente apareceu um guri pré-adolescente e me viu empurrando a motoca com a criança na garupa. Perguntou o que houve, eu expliquei. Ele pediu pra ver, e para o terror de todos os paulistanos e cariocas que estão me lendo agora, eu deixei. Ele deixou a bike dele no meu pé, e pegou meu recém comprado autopropelido caríssimo pra ver o que tava acontecendo. O diagnóstico: “volta na loja. Se tiver algo errado você já troca”.

E realmente, eu não ia andar 2.3km pra chegar em casa e ter de andar outros 2.3 de novo empurrando aquele trambolho. Voltei.

Cheguei na loja esbaforida, pedindo água. O vendedor preocupado, “tá tudo bem?” e eu “ela… não… acelera…”. Preparo físico de centavos, mas empurrar trambolho mais criança, realmente…

Ele bateu o olho e diagnosticou: bateria fraca. Pediu mil desculpas, disse que esse não é o procedimento da loja, e procurou outra bateria, também descarregada. Eu disse “Não tem problema: deixa aí a bateria carregando, eu levo a minha bike antiga e a criança pra casa e depois venho buscar a elétrica”.

Catei meu triciclo, botei criança na cestinha, fui até a casa de material de construção comprar o que precisava, e voltei pra casa completando os outros 2.3km nas perna.

Cheguei em casa, ranquei menino da bike, Eduardo não entendeu nada de me ver voltando pra casa com a bicicleta velha sendo que eu tinha comunicado todo o processo com ele. Peguei um Uber pra voltar pra loja, que isso era meio dia já.

2.3km de carro depois (e foi mais barato que o aluguel da bike elétrica, o que me deixa meio triste pra falar a real), peguei a moto com bateria (meio) carregada e agora sim, ela funcionou normalmente. Mais 2.3km pra casa, agora na minha motinha. Ufa!

Eu não sabia que isso era tão gostoso

Aconteceu ontem com a bike elétrica e hoje com a motinha: quando eu piloto, minha mente fica calma. Ela não fala nada. Ela não tem conversas com outras pessoas, não pensa histórias, não tenta resolver problemas. No máximo, canta uma música.

Ontem, atribuí ao medo. Hoje soube que era liberdade.

Claro que dirigindo eu preciso tomar muito mais cuidado, né. As regras dos autopropelidos são idênticas da bicicleta, então eu posso andar na ciclovia, não posso pegar rodovia, cuidar com as pessoas, etc e tal. Não precisa de CNH, capacete é legal (principalmente pra caso você se machuque, tipo quedas) mas não é obrigatório.

Acho que não depender da minha perna pra pedalar me deixa mais segura. Ser mais rápida faz com que me sinta atrapalhando menos, saindo mais rápido do caminho. As setas e a buzina me deixam muito segura que as pessoas estão vendo o que eu vou fazer, mas a arrancada mesmo, sem precisar contar com o delay de sair da inércia, já é excelente.

O conforto não pode ser menosprezado. Precisei voltar em outra loja de material de construção de tarde e fui contente e tranquila — levando menino e tudo, que quis passear “de verdade”. Ir e voltar sem estar exausta e pingando é espetacular. Isso que me faz crer que vou conseguir fazer ginástica de novo: odeio chegar na academia cansada.

Ainda tenho um receio porque meu estado natural é: preguiçosa. Então preciso me manter atenta, porque querendo ou não a bicicleta era um exercício forçado. Um que muitas vezes eu nem fazia. No caso de hoje mesmo, eu acho que não teria ido de novo pra casa de material de construção se fosse pedalando no pêlo. Depois da operação vou sim voltar à academia, preciso, não tem jeito.

É só que essa liberdade de locomoção, de ir quando eu quiser, sem depender de Uber, de ônibus, de força, nada, é muito legal. Eu fui criada em ônibus, mas em São Paulo é bem melhor que aqui em Floripa. Desde 2018 eu já queria ter comprado uma moto automática, mas não passei no exame médico do Detran. Meu tornozelo não dobra, e nas motos manuais a troca de marcha é no tornozelo esquerdo. Eu só posso dirigir automática. Mas não tem em nenhuma autoescola do ESTADO uma moto automática pra eu fazer aula, e eu não quis investir em uma sem testar antes.

A autopropelida é um meio termo muito bom. Ainda vou gastar tubos de dinheiro indo pro Centro durante a operação e pós operatório, mas pra circular aqui no bairro não vou mais me preocupar com trânsito e preços de carros.

E só ir… é bom demais.

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Published by marta

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