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Assumindo que eu sou PcD

Assumindo que eu sou PcD
Photo by Maddi Bazzocco on Unsplash

Já nasci com uma síndrome rara. Assumir que preciso de cuidados diferentes levou mais tempo.

Todos os dias eu acordo, cuido da criança e assim que possível coloco minha meia de compressão. Eu odiava usar isso quando mais nova: era quente, apertado, ruim de colocar, ruim de tirar e não fazia diferença. Fiquei anos sem usar. Mas depois dos 35 ela me trouxe um alívio quase indescritível. É um frescor na perna, parece que ela escovou o dente. A perna fica mais leve, eu fico mais disposta, tenho menos “preguiça” de andar ou fazer alguma coisa. E todos os dias, na hora do banho, eu lavo a meia que usei com sabonete neutro e deixo secando na sombra e na horizontal pra ela durar mais.

Todos os dias eu uso chinelos e tênis adaptados, com salto e palmilha. Os 5cm de diferença entre as pernas, mais o salto imposto pelo médico que operou meu tornozelo me obrigam a isso, senão minha panturrilha da perna menor me mata de dor por ficar sempre na ponta dos pés. Além disso, as adaptações distribuem melhor o esforço das duas pernas, e a menor não fica tão cansada de carregar meu corpo sozinha.

Todos os dias eu tomo meus remédios antes de dormir, desde 2011. Eles ajudam a suavizar os pensamentos intrusivos, e me ajudam a guiar minha cabeça para onde eu quero, não para onde ela quer. Eles me ajudam a ser eu mesma, ter motivação, ser gentil.

Todos os dias eu troco a água do CPAP e uso o aparelho para dormir. Tive uns dias congestionada e não consegui usar, e que horror que é não dormir. Eu demoro muito mais pra levantar, eu demoro horas a mais pra alma baixar no corpo. Já disse e sempre vou repetir: o CPAP salvou minha vida, física e mental.

Eu deveria fazer mais. Pelo menos, musculação. A musculação ajuda a fortalecer as pernas, costas e braços de uma pessoa que fica sentada o dia todo. E ajuda a saúde mental também. Devia comer melhor. Menos doce. Mas aí eu fico muito irritada. Pelo menos não fumo, apesar da vontade constante. Tá ótimo.

E eu sou tão grata que hoje a gente tem tantos recursos pra viver melhor com as nossas necessidades, sabe? Não faço esse post para choramingar que preciso fazer coisas por mim: todo mundo precisa, todo dia. Todo mundo faz alguma adaptação da vida pra viver melhor. Uma escolha alimentar, cortar a etiqueta da roupa, sei lá. Acho que é mais pra ver que esses recursos na verdade ajudam minha vida. Antes eu achava que era só chato, inconveniente, um saco; mas hoje vejo o valor.

Hoje gosto de cuidar de mim.

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Published by marta

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