maternidade

Os cuspes que caem na nossa testa

Os cuspes que caem na nossa testa
Photo by TMS Sam on Pexels.com

Quando eu engravidei, caíram por terra várias percepções que eu tinha como óbvias sobre a vida. E isso segue acontecendo com uma frequência aterradora.

Primeiro que eu achava que engravidava quem queria, porque temos anticoncepcional, camisinha, tantos recursos. Tal qual 55% das gravidezes no Brasil, a minha não foi planejada.

Eu sentia que o parto normal era melhor e mais barato; que as mulheres sofriam e que no SUS o parto era sempre normal, mesmo que a mulher não quisesse. Descobri que o parto normal é o melhor para a mulher e o bebê e que geralmente não é questão de escolha: na rede privada, 82% dos partos são cesarianas, e no SUS, 40%.

Achei que as pessoas amamentavam, sei lá, até um ano. Que a maioria das pessoas amamentava. A duração média da amamentação no Brasil é de 54 dias. Com a volta ao trabalho aos 4 meses da criança, a maioria das mães não tem apoio para extrair leite materno e mantê-lo seguro: a fórmula entra. Fora que amamentar não é trivial, óbvio. É dolorido, cansativo, nas primeiras semanas é difícil.

Que algumas davam chupeta. Eu nunca fui simpatizante porque meus dentes eram muito tortos, mas eu achava que bebês precisassem de chupeta. Não precisam e tem diversos malefícios, entre eles, claro, afetar a amamentação.

Mas a mãe não consegue amamentar, volta ao trabalho com 4 meses, sem apoio, a criança vai parar de chorar como?

Daí, tá, nasceu (no SUS, de parto normal). Surgem uma série de regras pra gente seguir, todas elas se cancelando entre si. Um campo infinito de joio, trigo e caos pra separar. E você não sabe o que é joio nem trigo, só conhece o caos.

Meu filho nunca dormiu bem. Eu fiz de tudo. Eu deixei as luzes apagadas. Reclamei mentalmente do barulho da louça sendo lavada. Deixei de ver televisão. Fiz rotina. Dei banho quentinho. Fiz massagem. Ruído branco. Tudo que você imaginar: ele acordava a cada 45min nos três primeiros meses. Metade da internet era “isso é normal” e a outra metade era “você está prejudicando o desenvolvimento neurológico da sua criança: aprenda com meu curso como ele deve dormir”.

Aí eu comecei a reparar que todas as crianças que dormiam usavam chupeta. E eu não queria dar chupeta pra minha. Fizemos cama compartilhada por mais de dois anos. Depois fui me retirando da cama dele. Dormindo no outro quarto. Até que ele se mudou pro quarto dele — acho que com 3 anos e meio. Ainda tem noites que não dorme a noite toda, mas geralmente é culpa da rinite.

Eu achava que era tudo uma questão de ação e consequência. Meu deus, que inocente que eu era. Eu achava que se oferecesse todos os alimentos de diversas formas na janela de imunidade na Introdução Alimentar ele nunca negaria comida nenhuma. E meu filho come bem, e tenho certeza que uma grande variedade desde pequeno ajuda muito, mas por um bom tempo ele não comeu nada que fosse verde. Apenas porque era verde. Mesmo tendo comido muito brócolis quando melhor. Eu acho que ele come bem apenas por sorte.

Eu sempre disse que meu filho ia mamar até quando ele quisesse e desfraldar quando ele estivesse pronto.

HAHAHHAHA.

Ah que linda e romântica história que eu acreditei. Eu faria tudo certo e a criança seguiria meu roteiro imaginário que ele não tem nenhuma ciência sobre. Só sei que lá pelas tantas, ele ia acordar num lindo dia de sol e ir brincar, esquecendo totalmente do mamá. Talvez lembrasse às vezes, mas aí não teria mais e ele ficaria ok com isso. Todas as nações unidas felizes no paraíso.

Primeiro que eu tive de desmamar noturno, pra poder dormir. E eu fiz isso antes do diurno, mesmo sendo o oposto que a maioria das pessoas faz, porque meu problema era amamentar de noite, não de dia. Tentei a primeira vez antes dos dois anos e foi um grande fracasso. Ele bateu no professor de capoeira. Desisti. Só depois dos dois anos, com muita historinha, entender o que era dia e noite e alguns dias de choro deu certo. Ele acordava, mas eu ninava e não amamentava até de manhã.

Era uma tortura pra mim ver ele chorando por algo que eu tinha e não conseguia mais dar mentalmente, mas poderia — se quisesse — fisicamente. Eu me sentia sendo fraca, traindo ele. Foi muita terapia pra entender que se eu não dormisse, ele também seria prejudicado.

O desmame total veio apenas aos 4 anos e 3 meses. Primeiro mamando em lugares específicos da casa por muito tempo, por exemplo, só no quarto (ele tinha mania de mamar vendo televisão). Ele nunca mamou na creche e ficava o dia todo lá desde um ano e pouco, então já não era o dia inteiro. Depois de muito tempo disso, comecei a avisar que eu ia operar o nariz e que não ia mais amamentar em alguns meses, então a partir dalí eu amamentaria apenas na hora de acordar e na hora de dormir.

Achei que iam ser meses disso, mas na mesma semana ele foi esquecendo um dia ou outro. Um dia ele mamou e não saiu nada e me deu bronca, porque eu não tinha comido direito. Só sei que na mesma semana ele desmamou.

Quer dizer, até hoje ele pede, até hoje eu digo que não tem mais, é isso.

Daí veio o desfralde. Quer dizer, ele já vinha vindo fazia tempo. Eu nunca quis forçar o desfralde. Eu queria que fosse guiado por ele. Na minha fantasia, ele ia ter desenvolvendo todos os sinais de prontidão: falar que fez, falar que está fazendo, falar que vai fazer. Tudo isso com fralda. E quando ele estivesse indo na privada, e a fralda ficasse seca, íamos trocar para cueca. E tudo seria feliz e alegre e perfeito, porque isso tudo aconteceria até os 3 anos e meio.

Eu só não contei que ele ia escorregar e ralar as costas no penico com 2 anos e meio, se recusando terminantemente a chegar sequer perto do apetrecho.

Mais uma vez lá fui eu fazer de tudo: comprei escadinha para privada; li livros e histórias de desfralde; comprei cuecas divertidas; fiz ele ficar horas sentado no penico chorando à força até ele pegar no sono; parei de fazer isso; deixei a escola fazer e recebi menino com meias mijadas em casa; tentei botar cueca e ele ficava parado estático em um canto. Uma dança eterna de frustrações.

Até golpe eu levei. Comprei uma fralda-cueca online e nunca recebi o produto. Tive de entrar com ação no Procon e consegui o dinheiro de volta. Então nesse período passaram seis meses onde ele parou de mamar, mudou de escola, de casa, de bairro. Muita mudança.

Comprei novamente as cuecas-fralda (umas cuecas com mais algodão, um forro acolchoado) e ele pelo menos usou um tempo sem ficar neurótico. Também comprei um potinho de recompensa: a cada xixi e cocô que ele fizesse no vaso, ganharia um xixizinho ou cocozinho para colocar no pote e se juntasse, ganharia um prêmio, brinquedo ou doce. Contrariando tudo que me disseram sobre dar recompensa.

Nada. Só frustração.

Eu nunca bati nem baterei no meu filho. Eu não grito com ele. E quando eu falo mais firme, é pra valer. A verdade é que tenho muito medo de ser uma mãe autoritária demais, tirando a autonomia dele. Quero que ele possa escolher algumas coisas, porque não se pode escolher tanto assim na vida. Que ele experimente as consequências dos próprios atos.

Mas o fato é: ele não tem maturidade pra isso. E colocar isso como responsabilidade de uma criança (decidir pela própria vida) beira a negligência. Ele vai se sentir seguro sabendo que tem um adulto responsável por perto que sabe o que é certo e muitas vezes o obriga a fazer o certo, mesmo que ele não goste na hora. Os limites ajudam o desenvolvimento, uma vez que ele sabe até onde ele pode explorar, e isso o deixa livre e seguro para não cair dessas beiradas.

É difícil porque com o desfralde, essa linha é tênue pra mim. Até onde é um processo dele e onde eu devo intervir? Ah, se ele tivesse seguido o script até os 3 anos e meio! Mas não seguiu, e agora? Até quando eu vou esperar ele avisar que fez, se com quatro anos e meio eu ainda tenho de perguntar se fez cocô?

Chegou um ponto de ruptura. Minha terapeuta me ajudou a ver como eu precisava expressar claramente meu desejo pra ele. E eu coloquei a cueca-fralda no sábado de manhã, e disse que ele ficaria todo o final de semana com elas.

Nossa eu nunca vi tanta barganha em um processo de luto. “Até meio-dia!”, “Eu não quero mais”, “Não vou mais comer”, “Não vou mais brincar”, choro, ranger de dentes e firmeza gentil: “eu entendo que seja uma coisa nova, mas você precisa passar por isso. Essa fralda te ajuda a saber quando você está com vontade de fazer.”.

Sábado foi um dia tão longo e difícil que às 21h30 eu estava capotada de sono. Exausta. É realmente muito difícil pra mim lidar com isso. Me afeta de verdade. Ele sabe, inconscientemente. E tenta empurrar essa borda frouxa a todo custo, porque sabe que se tentar mais e mais, vamos negociar e ele vai conseguir pelo menos uma coisa boa em troca.

Domingo começou do mesmo jeito: choro, caos e desespero. “Não quero dois dias seguidos!” etc. Tive de ser mais firme com um “Deu!” mais alto. “É isso que tem pra hoje e pronto!”. Depois, no café da manhã, ele pediu doce. “Mas ele está merecendo?” o pai perguntou. Você pode mexer com muita coisa com essa criança, mas não ameace o doce dele. De repente, virou a criança mais colaborativa do universo.

Parou de reclamar e choramingar e começou a ir sozinho no banheiro quando tinha vontade, sem falar nada. Usando, lavando as mãos e dando descarga. Com a naturalidade de quem faz isso há anos. Como se fosse normal. Apenas… destravou algo ali e foi. Teve dois escapes e só.

Ainda não acabou, mas fiquei muito orgulhosa dele, e muito mais calma. Na segunda, fiz minha parte do combinado: ele pode escolher se quer ir de cueca-fralda ou fralda-normal pra escola. A escola ainda é meio hostil. Ele implorou a fralda-normal. Eu deixei. Afinal, domingo tivemos um grande passo.

Mas não dava pra voltar atrás num avanço tão grande, e ficou acordado (talvez apenas entre os adultos?) que na terça ele iria de cueca-fralda. Nossa. Os gritos. O choro. O desespero. O caos. A escola acolheu e ele ficou, mas eu fiquei de coração partido.

Então fui mais uma vez clara com ele: vamos fazer a despedida da fralda. É o último dia de todos. Pode usar pra dormir, pode usar na escola, pode usar quando chegar em casa. Mas quando tomar o banho, vai colocar cueca e pronto. E não tem mais fralda.

A quinta era feriado, e em casa ele já estava mais acostumado. Na sexta, foi para a escola meio amuado, mas sem reclamar tanto quanto no outro dia. Agora ele já sabia o que esperar.

E eu aprendi isso sobre ele: meu filho lida melhor com as coisas quando avisado com antecedência. Surpresas não são bem vindas. Ele precisa de um tempo pra se acostumar com a ideia, tirar as dúvidas que ele tem. O medo diminui quando a gente explica antes. Isso foi uma lição valiosa.

Houveram outros escapes e alguma dificuldade com o banheiro da escola, mas é com orgulho que hoje posso dizer que meu filho é desfraldado. Acabou. Os escapes são raríssimos e podemos sair com ele tranquilos que tudo funciona bem.

Foi horrível. Mas acabou.

Meu filho não é mais um bebê. Será que eu estou em um tipo de segundo puerpério? Não sei, mas é um alívio: ele é um cara tão bacana. Tão inteligente. Adoro brincar com ele, ele tem aprendido a ler e jogar video-game. Fazemos coisas de casa juntos. Aprendemos a lidar um com o outro.

É uma montanha russa mesmo. Uma dança. Um pra lá, dois pra cá.

Não perca as novidades

Preencha o formulário para receber novos posts por e-mail. Não enviamos spam.

Não perca as novidades

Preencha o formulário para receber novos posts por e-mail. Não enviamos spam.

Published by marta

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *