reflexões

Well, well, look who is inside again

Well, well, look who is inside again
Photo by aj_aaaab on Unsplash

Bo Burnham é um comediante americano. Ele fez bastante sucesso pelo Youtube, fazia shows, mas começou a ter crises de ansiedade e depressão e ficou anos trancado em casa. Quando finalmente se viu pronto para voltar aos palcos, veio a pandemia. Então ele gravou INSIDE, um ótimo especial, disponível na Netflix.

Eu descobri a depressão em… eu ia dizer 2010, quando fui diagnosticada. Mas não, foi muito antes disso. A depressão sempre permeou meu lar, desde criança, mesmo não sendo eu a deprimida. Eu achava que aquele era o normal.

Imagine fazer tudo sofrendo, ir chorando para a escola, chorar a tarde toda, ter explosões entre todos os sentimentos e nenhum sentimento com 16/17 anos, e o diagnóstico ser “ah, normal. É adolescente né? Faz drama.”. Quando eu não consegui mais trabalhar, em 2010, foi que a coisa mudou de figura. Teve importância. Enquanto eu estava produzindo, estava tudo bem. Mas de repente eu não conseguia mais produzir também. Aí perdi o pouco valor que eu tinha para mim mesma.

Foi um choque pra minha família quando eu tentei desviver em 2011. Logo eu, dona de um senso de humor ímpar, sempre tão cheia de luz, energia, fala alta, risada. Não tinha mais nada disso. Pra eles foi de repente. Pra mim, foi aos poucos e do nada.

Muitas águas rolaram. E eu estabilizei meu cenário, voltei a produzir, tomo medicação e tive altos e baixos.

Em janeiro agora de 2024, eu realmente achei que eu ia melhorar. Eu achei que dois anos de análise estavam fazendo efeito, que eu estava aprendendo a demandar mais, definir limites, pedir, comunicar, me levar em consideração. O remédio estava tão baixo.

Estou rindo da minha ingenuidade.

Eu oscilo entre a revolta de viver em um mundo impossível, mas que é possível pra todo mundo.

“Só um pouco de força de vontade, menos drama, você consegue, todo mundo consegue, por que você não? Todo mundo é assim, isso é normal. Inclusive, a vida da maioria das pessoas é bem pior que a sua. E se você precisasse ir para um trabalho presencial, como você ia fazer? Coma frutas, verduras e vegetais. Evite frituras, açucares e industrializados. Não beba, não fume. Faça atividade física. Trabalhe pelo menos 8h/dia, bem focada. Economize dinheiro, não compre futilidades. Mantenha sua casa limpa. Dê atenção para seu filho pequeno. Faça as unhas, retoque a raiz do cabelo, faça skin care. Care. É questão de se amar, sabe? É só se amar e fazer bem pra você mesma. Aliás, se você não fizer, seu filho vai sentir. E eu não sei de que peso você está falando, você anda se comparando com os outros? Compre hoje mesmo esse aplicativo feito especialmente para você, que tem TDAH e não consegue fazer nada. Isso vai resolver sua vida. Seja mais produtivo! Mas não esqueça de descansar. Faça o que você gosta! Mas não dê seu filho para outro criar, você fez, você cuide. Faça tudo isso com anemia. Doente, gripada, é só um vírus, não, eu não preciso fazer raio-x do seu pulmão, eu ouvi e está limpinho. Você precisa de mais músculo na perna. Se preocupe com o seu futuro. Viva o hoje. Não ligue pro passado, mas por que você acha que você age assim? Bem, agora isso passou e você pode fazer diferente – você pode fazer o que quiser. O quê você quer? Não ouse querer morrer. Seu filho não pode sentir isso, nem crescer sem mãe. Mas você tá bem, né? Afinal, você realizou um sonho, não é? Você tem tudo: você tem casa, em um lugar bom, um lugar lindo. Você consegue pagar suas contas, não falta comida na sua mesa. Olha seu marido, sua família que linda. Olha como todo mundo te ama. Por quê você se sente assim afinal?”

Mais ou menos isso, em looping.

Meu filho chegou da creche agora e eu preciso engolir o choro e esquecer isso até a hora que ele pegar no sono. Hoje não sei se consigo.

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Published by marta

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