Já nasci com uma síndrome rara. Assumir que preciso de cuidados diferentes levou mais tempo.
Todos os dias eu acordo, cuido da criança e assim que possível coloco minha meia de compressão. Eu odiava usar isso quando mais nova: era quente, apertado, ruim de colocar, ruim de tirar e não fazia diferença. Fiquei anos sem usar. Mas depois dos 35 ela me trouxe um alívio quase indescritível. É um frescor na perna, parece que ela escovou o dente. A perna fica mais leve, eu fico mais disposta, tenho menos “preguiça” de andar ou fazer alguma coisa. E todos os dias, na hora do banho, eu lavo a meia que usei com sabonete neutro e deixo secando na sombra e na horizontal pra ela durar mais.
Todos os dias eu uso chinelos e tênis adaptados, com salto e palmilha. Os 5cm de diferença entre as pernas, mais o salto imposto pelo médico que operou meu tornozelo me obrigam a isso, senão minha panturrilha da perna menor me mata de dor por ficar sempre na ponta dos pés. Além disso, as adaptações distribuem melhor o esforço das duas pernas, e a menor não fica tão cansada de carregar meu corpo sozinha.
Todos os dias eu tomo meus remédios antes de dormir, desde 2011. Eles ajudam a suavizar os pensamentos intrusivos, e me ajudam a guiar minha cabeça para onde eu quero, não para onde ela quer. Eles me ajudam a ser eu mesma, ter motivação, ser gentil.
Todos os dias eu troco a água do CPAP e uso o aparelho para dormir. Tive uns dias congestionada e não consegui usar, e que horror que é não dormir. Eu demoro muito mais pra levantar, eu demoro horas a mais pra alma baixar no corpo. Já disse e sempre vou repetir: o CPAP salvou minha vida, física e mental.
Eu deveria fazer mais. Pelo menos, musculação. A musculação ajuda a fortalecer as pernas, costas e braços de uma pessoa que fica sentada o dia todo. E ajuda a saúde mental também. Devia comer melhor. Menos doce. Mas aí eu fico muito irritada. Pelo menos não fumo, apesar da vontade constante. Tá ótimo.
E eu sou tão grata que hoje a gente tem tantos recursos pra viver melhor com as nossas necessidades, sabe? Não faço esse post para choramingar que preciso fazer coisas por mim: todo mundo precisa, todo dia. Todo mundo faz alguma adaptação da vida pra viver melhor. Uma escolha alimentar, cortar a etiqueta da roupa, sei lá. Acho que é mais pra ver que esses recursos na verdade ajudam minha vida. Antes eu achava que era só chato, inconveniente, um saco; mas hoje vejo o valor.
Hoje gosto de cuidar de mim.