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São Paulo, 26 de dezembro de 2025

São Paulo, 26 de dezembro de 2025

Eu acho que meu ranço por essa cidade diminuiu um pouco nessa viagem. Acho que a visão aberta pelo aulão de Subvertendo o Design ainda está rendendo, e eu observo coisas que estavam mescladas na normalidade da vida que eu tinha quando morava aqui. Agora, 10 anos depois, vejo detalhes que não via antes. Sinto o calor de forma diferente na pele. Não voltaria, mas não odeio. Observo como quem vai fazer um desenho, como quem tem curiosidade. É bom. É positivo.

Estou hospedada numa parte classe média da zona leste que ainda tem algumas casinhas entre os prédios tentando resistir à especulação imobiliária. Algumas cederam, tem placas de “vendido!” e “em breve, empreendimento aqui”. Me chama a atenção o pouco espaço de quintal: tudo é fechado, tudo é murado alto. Não é assim onde eu moro. Meu portão é de enfeite e vai cair logo. Que nem dente de leite.

Eu evito tirar fotos na rua porque tenho medo que alguém passe correndo e pegue meu celular. Não vi indícios disso. Vi grades nas janelas, todas. Pensei que ninguém espera ser assaltado para fazer isso. Uma pessoa é assaltada, ou mesmo tem medo, e gradeia suas janelas; a próxima não espera ser vítima, e gradeia também. E de repente o bairro todo parece um monte de gaiolas.

Não sei, estou especulando pela minha vivência pessoal. Não sei se é ou não é perigoso; fico atenta porque sei que não estou em casa. E acho que tem isso também. Mesmo quando São Paulo era minha casa, nunca senti que podia relaxar, baixar a guarda. Eu estava acostumada porque minha casa também era esse lugar ansioso, de nunca deixar a máscara cair. Mas depois que a gente acostuma a ter um lugar pra voltar e se soltar, relaxar, é diferente. Como um gato de rua que aprende a exibir a barriga.

Como não tirei as fotos, segue uns prints do maps. Essa foto é de 2018. Não tem mais o orelhão:

Eu acho uma graça o castelinho. A marquise. Floripa não tem marquise, quando chove você molha, no sol você cozinha. Em São Paulo, tem. Mas não alivia. O calor de Floripa vem de cima e fica no corpo suado. O de São Paulo é seco, vem do asfalto. O corpo seca, mas a garganta também seca e os passos são pesados.

Em uma casa de esquina, no quintal, tinha um lago artificial com peixes reais. Minha criança ficou muito impressionada: “mamãe, peixes da vida real!”. Eu também me surpreendi de achar peixes do mais absoluto nada, no meio de um monte de casinhas velhas e prédios.

Alguns azulejos ainda tentam sobreviver contra as caixas cinzas de 30 andares.

Me impressiona porque eles parecem ter o quê, uns 30 anos ou mais? 40 anos? E estão todos ali, quase intactos. Tem prédio novo em Floripa que em 5 anos já teve que trocar tudo esses revestimentos. E olha os padrões, que gracinha!

Algumas casinhas germinadas tentam segurar suas origens apesar das modificações dos andares de baixo. As bordas das janelas tentando sobreviver ao tempo. Eu acho charmoso, ainda mais numa era onde tudo virou caixinha de remédio. Essa fachada da foto parecem todos os níveis de história que uma fachada dessa pode trazer: o passado no meio com janela de madeira; o presente, à esquerda, com alumínio; e o futuro desgastado e abandonado à direita, com o mato tomando conta.

Não tem jeito: os olhos são uma parte pequena do processo de ver. Quem enxerga mesmo é o coração.

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Published by marta

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