Quando eu era criança e estudei os cinquenta anos em cinco do Kubitschek pensei “cara, o brother jamais conseguiria essa façanha”. Mas agora eu sou adulta e posso dizer com propriedade que três meses* de obra roubaram três anos da nossa energia vital, sim.
(* nem durou tudo isso, foram 3 meses de dor de cabeça mas nem 40 dias de obra)
O muro que divide nossa casa com o terreno ao lado, desocupado, já estava se inclinando pro lado do vizinho quando a gente comprou a casa ano passado, mas até aí tudo bem. Isso mudou em dezembro, quando um ciclone fez com que o muro rachasse ainda mais e um buraco abrisse do nosso quintal para o terreno ao lado, que além de ser mais baixo, ainda foi escavado.
Chamamos até a defesa civil, que nada pode fazer dado que os terrenos são particulares. Apenas nos orientaram, o que já foi de grande valia. Fiizemos dois orçamentos e ficamos chocados com o valor. Tentamos acionar o seguro para que eles arcassem com os custos, mas não aceitaram, alegando dano estrutural prévio ao ciclone. O muro é apenas nosso, não é do vizinho.



Felizmente, um dos orçamentos coube no bolso, raspando bem o tacho das economias. Encontramos esse engenheiro que trabalha com o mestre de obras que faziam tudo, do começo ao fim.
O começo acho que foi a pior parte. Era necessário destruir o muro existente (isso foi satisfatório) e cavar uma vala funda, mais de um metro, um metro e meio, para fazer o que chamam de sapata. Isso segura o muro embaixo da terra, para que ele fique firme na parte de cima. Nessa de fazer esse buraco choveu, e a areia e brita escorreram pelo buraco. Perdemos nosso corredor lateral, porque tudo ia para o vizinho. Pra piorar, um cano de água quebrou várias vezes pelo peso da terra. Ficamos sem água inclusive em um final de semana com todo mundo com virose.
Com mais pessoas, o trabalho ingrato andou mais rápido. E depois que essa parte inicial e subterrânea foi feita, ficamos mais sossegados. O muro subiu, foi rebocado e pintado dentro do prazo estipulado. A equipe foi muito educada, galera responsável, pegavam duro todo dia e mandaram muito bem.
Mas foi, naturalmente, muito difícil. A gente não conseguiu continuar trabalhando na edícula (nosso escritório) por conta da poeira e porque era o banheiro dos guris, que entupiu e teve problemas com os canos de água. Então precisamos trabalhar na casa, que ficou entulhada. Na primeira semana ainda consegui trabalhar na mesa da cozinha, mas depois a tendinite gritou e precisei da minha mesa. A cama de casal que fica na edícula para as visitas já estava no quarto da criança. Tudo muito apertado e cheio de tralha.
Barulho todo dia o dia inteiro. A betoneira parecia que tinha sincronização com meu Google Meet e ligava cada vez que eu entrava em reunião. Muito calor, lá em cima não tem ar condicionado, só ventilador. Preocupada com os guri embaixo do sol quente. Poeira por tudo. Sujeira por tudo. Barulho. Gasto.
Nos últimos dias o som parecia que era uma broca de dentista dentro da minha cabeça e eu me senti na cadeira do dentista o dia todo: super tensa. Teve dia que eu dormindo fui rodar os ombros pra trás e não dava porque eles já estavam em cima, grudados nas orelhas. Eu com dor sempre, super estimulada sempre, irritada sempre. Foi um longo mês.
Quando acabou, que eu fui ver a edícula de novo, tava só o pó. Tiramos TUDO. Eu lavei de cima a baixo com a mangueira de alta pressão. As paredes escorriam pó e sujeira.
Agora já está tudo no lugar. O muro foi feito. Estou de volta no escritório. Limpei a impressora 3D de novo e comprei filamento novo — tem um projetinho no forno. Sexta, sábado e domingo (hoje) foram dias muito mais leves e eu me senti melhor, sem a vontade de largar tudo e sair correndo que eu tava antes.
Eu acho que não tenho resiliência nenhuma. Qualquer coisinha quero sair correndo. Só que apesar de querer, eu fico, e faço, e sobrevivo. Vai ver que resiliência é isso, e não “não sentir”. Definitivamente não era isso que eu esperava quando comprei a casa. Eu esperava obras, sim, mas obras do tipo “quis mudar minha cozinha e quebrei tudo, foi chato mas agora tenho uma cozinha show”. Fazer muro externo porque tava caindo não era uma grande prioridade, e o tempo todo eu sentia que não valia a pena mas que não tinha opção.
Deu tudo certo e tudo que eu peço são seis meses de paz. Só isso.
Escrevi esse texto dois meses atrás e não publiquei porque me faltaram algumas fotos para ilustrar o processo. Não vou atrás delas agora, apesar de ter. Preguiça.
Vendo da ótica de dois meses depois: que drama. Foi só uma obra. Foi chato, me deu uns cabelos brancos? Sim. Gastamos uma baita grana e ainda estamos tentando juntar de novo? Naturalmente. Mas o muro tá lá pronto e fim de papo. Precisava fazer, fizemos, fim.
Choradeira.
Vou publicar porque tô atualizando meu site e não quero ficar com post no rascunho. As coisas voltaram a fluir.